quarta-feira, 11 de maio de 2016

Relato da saída de campo à UBS Santa Cecília

         No decorrer da nossa trajetória, enquanto estudantes da graduação de psicologia da UFRGS, nos deparamos com uma fronteira muito grande entre as perspectivas clínica, privada e individual, e a saúde pública, com a proposta de uma clínica ampliada e mais coletiva. Muitas vezes este abismo nos coloca em uma posição de antagonismo e acaba nos privando de conhecer melhor ambas as teorizações e práticas clínicas.

Com a introdução da disciplina de Psicologia e Saúde Coletiva notamos que um universo novo se abre, e que as possibilidades de pensar a psicologia, nos mais variados espaços, é ampliada inúmeras vezes. E que a partir deste deslocamento da sala de aula para os serviços de saúde podemos perceber melhor como as perspectivas teóricas são frágeis e potentes ao mesmo tempo.

            Importante descrever neste relato que o lugar de onde eu falo é de uma usuária do SUS desde sempre e, mais especificamente, da UBS Santa Cecília há três anos, pois a Casa de Estudantes da UFRGS do Campus Saúde, da qual sou residente, está localizada no território desta Unidade. Muito do que descreverei aqui será atravessado pela minha vivência como usuária para além da minha implicação enquanto estudante.

            Fomos recebidos/as na UBS por uma médica do local, e também professora da UFRGS, tendo em vista o vínculo institucional que se mantém entre o HCPA - órgão vinculado a UBS - e a UFRGS. A profissional relata sobre a sua trajetória dentro de órgãos da saúde pública, o que diz muito sobre seu posicionamento e engajamento na construção do SUS. 

           A partir de sua exposição, acerca do funcionamento e das demandas do local, o que ela destaca é a questão da saúde mental ser tão negligenciada, ou secundarizada, na saúde básica. No entanto, nos revela o dado de que a segunda demanda mais frequente no serviço é a depressão como diagnóstico. Porém, percebe-se que as questões relacionadas mais diretamente ao corpo são as que mais tem prioridade no modelo vigente de saúde pública, o que se torna um paradoxo que nos leva a vários questionamentos.

        Mas ao mesmo tempo em que ela fala desta negligência com a saúde mental na atenção primária, percebemos que seu discurso é atravessado pelo saber médico hegemônico quando relata que “é necessário que se comprove, cientificamente, a eficácia das técnicas psicoterápicas”. Desta forma nos traz o exemplo dos psicofármacos, da terapia cognitivo-comportamental e da eletroconvulsoterapia, que são tratamentos que possuem estudos que demonstram certa eficácia. A frase que ela menciona muito é “precisamos de dados”.

        Como desafios no SUS é mencionada a questão das tecnologias da informação. Relata que “precisam de formas com que as pessoas entendam o que os profissionais querem dizer”. Reitera que essa é a grande questão para um melhor funcionamento do serviço. Neste momento pensei o quanto a corresponsabilização foi um princípio negligenciado, pois coloca o sujeito em uma situação de “desinformado”, ou como aquele que não entende o que o profissional quer dizer, cupabilizando-o. 
   
       Esta frase, mencionada pela médica, foi marcante para mim. Primeiro por conta da culpabilização do usuário, mas também por não problematizar que a linguagem médica utilizada é provida de uma hierarquia de saber/ poder, enquanto relação. Penso que sim, precisamos investir em tecnologias de informação, mas que partir do pressuposto de que quem não compreende é quem está utilizando o serviço, - e não da possibilidade de ser quem o oferece, também -, me parece um tanto culpabilizador. 


      Sendo assim, penso que esta visita ao serviço nos possibilitou uma maior aproximação da realidade do SUS, mais especificamente da atenção básica, embora a realidade da UBS Santa Cecília seja privilegiada quando comparada a grande maioria das unidades existentes no estado, ou até mesmo no país. Os questionamentos levantados acerca do SUS são no sentido de pensar estratégias de fortalecimento e não na sua desqualificação. Afinal de contas, sabemos que há uma discurso contrário muito forte referente a tudo o que público, mas sabemos que a onda de privatização destes serviços não é uma saída favorável, ainda mais para as populações mais vulneráveis socialmente.

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