No decorrer da
nossa trajetória, enquanto estudantes da graduação de psicologia da UFRGS, nos
deparamos com uma fronteira muito grande entre as perspectivas clínica, privada
e individual, e a saúde pública, com a proposta de uma clínica ampliada e mais
coletiva. Muitas vezes este abismo nos coloca em uma posição de antagonismo e
acaba nos privando de conhecer melhor ambas as teorizações e práticas clínicas.
Com
a introdução da disciplina de Psicologia e Saúde Coletiva notamos que um
universo novo se abre, e que as possibilidades de pensar a psicologia, nos mais
variados espaços, é ampliada inúmeras vezes. E que a partir deste deslocamento
da sala de aula para os serviços de saúde podemos perceber melhor como as
perspectivas teóricas são frágeis e potentes ao mesmo tempo.
Importante descrever neste relato
que o lugar de onde eu falo é de uma usuária do SUS desde sempre e, mais
especificamente, da UBS Santa Cecília há três anos, pois a Casa de Estudantes
da UFRGS do Campus Saúde, da qual sou residente, está localizada no território
desta Unidade. Muito do que descreverei aqui será atravessado pela minha
vivência como usuária para além da minha implicação enquanto estudante.
Fomos recebidos/as na UBS por uma
médica do local, e também professora da UFRGS, tendo em vista o vínculo
institucional que se mantém entre o HCPA - órgão vinculado a UBS - e a UFRGS. A
profissional relata sobre a sua trajetória dentro de órgãos da saúde pública, o
que diz muito sobre seu posicionamento e engajamento na construção do SUS.
A partir de sua exposição, acerca do
funcionamento e das demandas do local, o que ela destaca é a questão da saúde
mental ser tão negligenciada, ou secundarizada, na saúde básica. No entanto,
nos revela o dado de que a segunda demanda mais frequente no serviço é a
depressão como diagnóstico. Porém, percebe-se que as questões relacionadas mais
diretamente ao corpo são as que mais tem prioridade no modelo vigente de saúde
pública, o que se torna um paradoxo que nos leva a vários questionamentos.
Mas ao mesmo tempo em que ela fala
desta negligência com a saúde mental na atenção primária, percebemos que seu
discurso é atravessado pelo saber médico hegemônico quando relata que “é
necessário que se comprove, cientificamente, a eficácia das técnicas
psicoterápicas”. Desta forma nos traz o exemplo dos psicofármacos, da terapia
cognitivo-comportamental e da eletroconvulsoterapia, que são tratamentos que
possuem estudos que demonstram certa eficácia. A frase que ela menciona muito é
“precisamos de dados”.
Como desafios no SUS é mencionada a
questão das tecnologias da informação. Relata que “precisam de formas com que
as pessoas entendam o que os profissionais querem dizer”. Reitera que essa é a
grande questão para um melhor funcionamento do serviço. Neste momento pensei o
quanto a corresponsabilização foi um princípio negligenciado, pois coloca o
sujeito em uma situação de “desinformado”, ou como aquele que não entende o que
o profissional quer dizer, cupabilizando-o.
Esta frase, mencionada pela médica,
foi marcante para mim. Primeiro por conta da culpabilização do usuário, mas
também por não problematizar que a linguagem médica utilizada é provida de uma
hierarquia de saber/ poder, enquanto relação. Penso que sim, precisamos
investir em tecnologias de informação, mas que partir do pressuposto de que
quem não compreende é quem está utilizando o serviço, - e não da possibilidade
de ser quem o oferece, também -, me parece um tanto culpabilizador.
Sendo assim, penso que esta visita
ao serviço nos possibilitou uma maior aproximação da realidade do SUS, mais
especificamente da atenção básica, embora a realidade da UBS Santa Cecília seja
privilegiada quando comparada a grande maioria das unidades existentes no
estado, ou até mesmo no país. Os questionamentos levantados acerca do SUS são
no sentido de pensar estratégias de fortalecimento e não na sua desqualificação.
Afinal de contas, sabemos que há uma discurso contrário muito forte referente a
tudo o que público, mas sabemos que a onda de privatização destes serviços não
é uma saída favorável, ainda mais para as populações mais vulneráveis
socialmente.
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