quinta-feira, 9 de junho de 2016

Relatório da visita ao CAPS ad do GHC no dia 10 de Maio


No dia 10 de maio nos encontramos no estacionamento da FABICO e seguimos de ônibus em direção ao CAPS-AD III – Passo a Passo, do GHC, localizado no Bairro Jardim São Pedro.  Acompanhadxs da professora Vera e da monitora Silvia, fomos muito bem recebidxs por Rosalva, enfermeira do local. Com uma linguagem bem descontraída e acolhedora, em um primeiro momento ela nos explicou como funcionava a lógica e a estrutura do serviço, abrindo espaço para perguntas.  Nesse serviço, atuam duas/dois assistentes sociais, umx terapeuta ocupacional, cinco enfermeirxs, três psiquiatras, doze técnicxs de enfermagem, três técnicxs administrativxs e dois/duas psicólogxs – além de profissionais da limpeza e segurança.
A enfermeira nos contou então das oficinas, da relação profissional-usuárix, das regras de convívio do local e de seus posicionamentos pessoais referentes a determinadas questões. A relação que a turma estabeleceu com a profissional foi tão positiva que a conversa durou bastante tempo. Entretanto, alguns pontos me marcaram mais que outros.
Lembro bem, por exemplo, da discussão que tivemos sobre abstinência/redução de danos. Ao mesmo tempo em que Rosalva defendia a lógica da Reforma Psiquiátrica – contando, inclusive, que seu posicionamento gerava conflito com xs demais profissionais – nos relatava certas práticas que pareciam apontar para outro viés. Ela contou que dentro do serviço de saúde só era permitido o uso de cigarro (na área externa), não deixando muito evidente a possibilidade de umx usuárix poder sair para fazer certo consumo e retornar em seguida para o serviço. Como justificativa, apontou o possível desconforto que outrxs usuárixs, que buscariam um tratamento com base na abstinência, poderiam manifestar caso se deparassem com tal situação. Também, ao perguntarmos se o serviço forneceria utensílios, como o cachimbo, para xs usuárixs, seguindo a lógica da Redução de Danos, a enfermeira respondeu que não e acrescentou que achava que essa medida poderia incentivar o uso.
 Ao longo do debate, foi possível perceber que a posição dela não poderia ser classificada da forma maniqueísta como usualmente discutimos a teoria: “time da abstinência” x “time da redução”; mas sim uma posição construída a partir de sua experiência profissional em uma área de serviço que, mesmo orientada a cumprir certas diretrizes, não oferece nenhum treinamento prévio aos profissionais. Essa característica, ao mesmo tempo em que faz carecer determinadas práticas e sustentações teóricas, acaba formando um grupo de profissionais diversificado em suas orientações, que muitas vezes busca amparo técnico em seu próprio fazer. Outra coisa que me marcou bastante foram as suas posições pessoais: preferia trabalhar a noite, queria ministrar uma oficina sobre religião e mantinha uma relação de verdadeiro afeto com o seu trabalho.
Após esse momento de conversa, a enfermeira nos convidou para conhecermos o local. Era um espaço grande e bem estruturado. Era branco e limpo, mas em muitas salas haviam decorações produzidas pelxs próprixs usuárixs durante as oficinas artísticas. O local tinha dois andares e uma pequena área externa. Além das salas dos profissionais da saúde, haviam salas utilizadas para oficinas, uma cozinha, quartos e banheiros (separados entre usuárixs/profissionais). Durante o percurso também íamos conversando e entendendo como cada ambiente funcionava.
A visita foi longa e nos possibilitou conhecer o local com intimidade: Rolsava chegou a nos mostrar qual seria a sua janta naquela noite, fazendo com que nos sentíamos cada vez mais a vontade para perguntar sobre o funcionamento do serviço. Saímos de lá com várias questões sobre o funcionamento do CAPS, todas elas suscitadas por uma proximidade que tivemos a oportunidade de vivenciar. Longe de ser um serviço perfeito, foi muito agradável sentir que existem profissionais com vontades e afetos atuando nesses espaços.


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